Damaris Vitória Kremer da Rosa, de 26 anos, morreu apenas 74 dias depois de ser absolvida pelo júri no Rio Grande do Sul. A jovem passou seis anos presa preventivamente por um crime do qual foi considerada inocente. Durante o período no sistema prisional, relatou à mãe, Claudete Kremer Sott, de 51 anos, dores intensas provocadas por um câncer no colo do útero, descoberto somente quando já estava em estágio avançado.
Em entrevista à Rádio Gaúcha, Claudete descreveu os últimos meses da filha e o sofrimento vivido na prisão. Segundo ela, Damaris suportava dores severas e chegou a depender da solidariedade de outras detentas para conseguir remédios.
“Outras presas viam ela gritar de dor e, quando conseguiam algum remédio, davam para ela, porque não aguentavam ver o sofrimento. Não davam nem um paracetamol”, contou.
Damaris foi detida em agosto de 2019, acusada de participação no homicídio de Daniel Gomes Soveral, ocorrido em Salto do Jacuí, em 2018. A acusação dizia que ela teria atraído a vítima até o local do crime. A defesa, no entanto, sustentou que a jovem apenas contou ao então namorado, Henrique Kauê Gollmann, que havia sido estuprada por Daniel. Henrique foi condenado. Damaris só foi julgada em agosto de 2025, quando o júri a inocentou por falta de provas.
Durante a prisão, Damaris passou por pelo menos quatro unidades prisionais. Claudete relatou que uma delas, o presídio de Rio Pardo, tinha condições degradantes.
“É uma antiga senzala. As baratas andam pelas camas, pela comida. Quando chove, a gente fica na chuva”, disse.
Segundo a Polícia Penal, Damaris recebeu centenas de atendimentos médicos e psicológicos enquanto esteve presa. No entanto, a mãe afirma que a assistência foi insuficiente. Por mais de um ano, Damaris sentiu dores sem receber diagnóstico adequado. Somente em março de 2025, após um sangramento intenso, foi levada a um posto de saúde.
“Quando o médico a examinou, o jaleco dele ficou coberto de sangue. Ele disse que dali ela só sairia de ambulância”, relatou Claudete.
O diagnóstico foi devastador: câncer no colo do útero com metástase. A prisão foi convertida em domiciliar e, mesmo em tratamento com quimioterapia e radioterapia, Damaris usava tornozeleira eletrônica.
“Ela tomava morfina a cada quatro horas e ainda assim gritava de dor”, contou a mãe.
Os pedidos de soltura feitos ao longo dos anos foram negados sob a justificativa de que não havia provas concretas da doença. As autoridades classificaram os documentos apresentados como “meros receituários” sem diagnóstico confirmado.
Após ser absolvida, Damaris sonhava em recomeçar. Queria cursar Biomedicina e reconstruir a vida interrompida pela prisão.
“Ela me disse: ‘Mãe, eu quero realizar meus sonhos’”, recorda Claudete.
Nos últimos dias de vida, a mãe acompanhou a filha no hospital. A despedida, segundo ela, foi silenciosa e dolorosa.
“Ela abriu os olhos, olhou pra mim e suspirou. Eu disse: ‘Vai com Jesus, filha. Logo a mãe vai te encontrar’”, contou emocionada.
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