Caiu como uma bomba em Brasília e no país algo que revela a relação perigosa entre o poder do Estado brasileiro com o poder econômico: as transcrições de mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Vorcaro está preso acusado de cometer fraudes contra o sistema financeiro e sobre a relação dele com Moraes já pesava o fato do escritório onde atua a mulher do ministro ter sido contratado pelo ex-banqueiro.
O conteúdo das mensagens, periciado pela polícia federal, mostra que Vorcaro chegou a perguntar a Moraes se deveria se ausentar do país caso um pedido de prisão fosse emitido contra ele e se o ministro do supremo sabia da possibilidade ou poderia evitar a ação da polícia federal e da Procuradoria Geral da República.
Moraes limitou-se a dizer que “logo agora que tudo se encaminhava para a solução”.
O que mais tarde se soube que era um blefê com supostos investidores de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Vorcaro circulava pelo poder, como denuncia a PF: envolvia, se relacionava, bancava filmes como mostrou a conversa com o senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL; financiou viagens e hospedagem de luxo ao senador ciro nogueira, presidente nacional do progressistas; hospedagem internacional com direito a show de Taylor Swift ao senador do PT Jaques Wagner, ex-líder do governo, e agora confirma-se uma proximidade com Alexandre Moraes.
Antes que alguém diga que atire a primeira pedra quem nunca pecou, saibam que Daniel Vorcaro é um deste parasitas que não está nem aí para quem está no comando do país, tampouco a ideologia ou o partido político pesam.
Vorcaro quer se dar bem e ter todo mundo na mão, alvos não faltam, mal-intencionados também não, na direita, no centro, na esquerda, em cima ou embaixo.
A situação é tão escabrosa, que o ministro André Mendonça informou antes ao presidente do STF, que preside o inquérito, que iria derrubar o sigilo das conversas e levaria a questão ao plenário da mais alta corte.
Moraes está em uma sinuca de bico, foi pego no pulo, e terá que se explicar para muita gente, de todos os lados.
Agora, é Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal que acusa Mendonça de atuar como investigador, de forma ilegal, pois acionou a PF para determinar quem era o receptor das mensagens de Vorcaro, sem pedir a manifestação do ministério público, a PGR.
Moraes já foi acusado disso e de outras tantas situações, mas como Mendonça o fez agora, estaria perdoado por parte de quem acusa o outro ministro do STF, que, de acordo com a PF, se encontrou pelo menos seis vezes com Vorcaro.
Veja os diálogos:
Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em 17 de novembro de 2025, tentando embarcar rumo a Dubai em um jato particular.
No sábado prévio à sua prisão, o banqueiro diz a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Já no domingo, véspera da operação, Vorcaro pergunta: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.
A perícia da PF não conseguiu decifrar as respostas de Moraes, que foram enviadas em mensagens de visualização única.
As conversas naquele final de semana, porém, mostram que Vorcaro demonstrou surpresa com uma resposta do ministro: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo”, diz.
Vorcaro estava perto de anunciar a venda do Banco Master a um consórcio capitaneado pela Fictor Holding e um fundo de investidores dos Emirados Árabes Unidos.
Na sequência, o banqueiro cita o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, que seria responsável por determinar a sua prisão, e Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central (BC), que decretaria a liquidação do Banco Master no dia seguinte à prisão. “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo ta sabendo? Conseguimos fazer algo?”, diz nas mensagens.
Os diálogos constam em relatório da Polícia Federal cujo sigilo foi levantado nesta terça por decisão do ministro André Mendonça, relator da operação no Supremo.
Ainda em 15 de novembro, Vorcaro pergunta a Moraes: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”.
A PF entende que o banqueiro se referia a uma tentativa de bloquear a operação com a ajuda do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
O banqueiro reclama com o ministro sobre o avanço das investigações. “Muita sacanagem isso. Esses caras devem estar sabendo que eu estou resolvendo tudo essa semana e querem acabar com tudo antes”, critica.
Depois, diz que iria finalizar o negócio entre terça e quarta e que teria mostrado a Moraes, inclusive, uma carta com a aprovação do negócio pela família real de Abu Dhabi. “Loucura essa postura na última hora, no momento que vou resolver tudo”, lamenta.
Em 16 de novembro, véspera da prisão, Vorcaro fala sobre a possibilidade de adiar a operação junto a Andrei Rodrigues para a próxima semana para aproveitar o feriado da Consciência Negra, efetivar a venda do Master e evitar a quebra do banco. “Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, diz ao ministro.
Em 17 de novembro, dia em que seria preso tentando fugir do Brasil, Vorcaro disse que havia se movimentado para adiantar parte do negócio e demonstra preocupação com o vazamento da operação para o mercado.
No fim da tarde, o banqueiro demonstra ansiedade com alguma ação combinada com Moraes: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Duas horas depois, ele insiste: “Alguma novidade?”.
A última mensagem trocada com Moraes foi às 20h48 (horário de Brasília), menos de duas horas antes de ser preso. Vorcaro aparenta falar sobre a negociação para a venda do banco nas condições que encontrou.
“Tô indo assinar com os investidores de fora e estou online”, diz. Pouco antes de embarcar.