Para quem avaliou que o Mercado Comum do Sul (Mercosul), que reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai originalmente, jamais deixaria de ser uma proposta de ficção geopolítica e econômica, perdeu o argumento com a construção da maior zona de livre comércio do mundo com a assinatura do tratado com os 27 países da União Europeia, a terceira maior economia do planeta.
Ao longo de mais de 25 anos, o desenho do que abrirá mutuamente o mercado para mais de 720 milhões de consumidores, oscilou entre o protecionismo dos maiores produtores agrícolas da Europa, liderados pela França, e as dúvidas que regiam as diferenças regionais entre os governos, principalmente no caso de Brasil e Argentina, ora motivados por divergências ideológicas.
Sem Brasil não existe tratado, não só pela força do nosso agronegócio, das commodities de exportamos para países de todos os continentes, mas pela atração que mais de 213 milhões de habitantes têm em um dos maiores mercados consumidores do mundo, ávidos pelos produtos de valor agregado vindos da Europa.
Tanto o Mercosul quanto a União Europeia estão inseridos em um novo patamar comercial mundial, mesmo que as vantagens não venham de imediato, pois dependem da ratificação de todos os parlamentos dos países envolvidos e de prazos para a redução de tarifas de importação, que pode ser imediata ou gradual (em até 15 anos), a depender dos setores.
De qualquer ângulo que possa ser analisado, trata-se de uma ampla vitória em um momento atual em que o multilateralismo perde espaço para bravatas e aumento de tarifas, notoriamente dos Estados Unidos, em nome de recuperar o espaço perdido no comércio internacional.
Entre as evoluções com o novo tratado, destaca-se a diminuição da dependência do comércio com a China e os Estados Unidos, já que a União Europeia já ultrapassou, em 2025, antes mesmo da queda das barreiras, nosso maior parceiro comercial asiático.
Cenário se torna positivo para Santa Catarina
Analistas projetam que o acordo Mercosul e União Europeia deve significar uma redução no preço de alguns produtos importados, como vinhos, azeites, queijos e lácteos.
A contrapartida é inevitável, já que, além de maquinário, tecnologia e de outros produtos de valor agregado como automóveis e materiais veterinários, vindos da Europa, com menor preço, também é esperada a chegada de algumas marcas que não eram comercializadas no país, alguns chocolates premium, por exemplo.
Exportaremos mais produtos agropecuários e calçados brasileiros, com menos taxas e preços competitivos.
A Federação das Indústrias de SC (FIESC) destaca o papel estratégico de Santa Catarina na composição do acordo, um passo significativo para a inserção internacional do Brasil em um dos maiores mercados consumidores do planeta, com potencial de fortalecimento da indústria catarinense.
Para o presidente Fiesc, Gilberto Seleme, a assinatura vem em bom momento, em que as tensões geopolíticas reconfiguram as cadeias produtivas globais.
Picuinhas regionais devem ser deixadas de lado
A receita vale para o Mercosul e para a União Europeia e tem endereço certo ao condenar as rivalidades regionais e as diferenças políticas, culturais e históricas.
Não se trata de uma mudança de visão que a Europa venha a ter das América do Sul, tampouco uma nova perspectiva para olhar aos países que foram espoliados durante séculos de denominação de Portugal e Espanha, além de tantos outros invasores: franceses e holandeses para citar os de maiores investidas.
O tratado é a boia de salvação para a União Europeia e uma janela favorável para o Brasil.
Tanto que nem a ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante o ato de assinatura, em Assunção, no sábado (17), foi vista como um ato de rebeldia, já que a opinião do Itamaraty era a de que o ato seria formalizado pelos chefes das diplomacias dos países do Mercosul, como de fato ocorreu.
Durante o evento, o presidente Santiago Peña, do Paraguai, que preside o comando rotativo do bloco, declarou que sem Lula “não haveria acordo”.
Há um ponto valioso no acordo, o que trata de requisitos para que os blocos coexistam: a defesa intransigente da democracia e da liberdade entre os países integrantes.
Na assinatura estavam os presidentes Javier Milei, da Argentina; Yamandú Orsi, do Uruguai; Rodrigo Paz, da Bolívia; José Raúl Mulino, do Panamá; Ursula von der Leyen, da Comissão Europeia; e António Costa, do Conselho Europeu; e Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil.