As muitas pressões vindas do empresariado brasileiro, da comissão do Senado que foi a Washington e o trabalho entre as diplomacias do Brasil e dos Estados Unidos foram complementares para a grande cobrança interna feita por importadores norte-americanos para a derrubada parcial do tarifaço que já de 50% imposto em julho, passou para 40% recentemente, e que agora foi redefinido pelo presidente Donald Trump.
Era um desfecho previsível o de acabar com a alíquota sobre café, suco de laranja, frutas em geral e a carne que está no dia a dia da mesa de quem vive nos Estados Unidos, reação tão forte quanto deveriam valer os mais de 200 anos de relacionamento político e comercial entre os aliados, as maiores democracias do continente americano.
O que surgiu como um ato político, que envolvia no pano de fundo o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus ex-assessores ou ainda um inverídico superávit do Brasil em relação aos EUA ou a suposta censura a cidadãos norte-americanos e o ataque em desfavor das Big Techs, estabelecidas pelo Judiciário brasileiro, não suportariam o viés de empresário de Trump, sujeito ao temperamento inconstante do presidente.
Estes fatores tiveram um efeito temporário, como a pouco provável interferência de sanções contra os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento de Bolsonaro, o que não ocorreu, nem o ataque ao ministro Alexandre de Moraes, a quem foi aplicada a Lei Magnistsky, imposta a ditadores e criminosos internacionais que ferem os direitos humanos.
Química entre Trump e Lula era o sinal da mudança de humor
A ordem executiva que é retroativa a 13 de novembro, completa a nova fase das relações comerciais e políticas entre Brasil e EUA marcada pela ordem executiva em que Trump fez questão de incluir o diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o quem mais do que o peso político da declaração.
O erro da diplomacia brasileira em não acionar pontes com o governo Trump, desde o início do segundo mandato, fez a palavra do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) ser uma das poucas ouvidas na Casa Branca, carregada com a versão ideológica que os EUA precisavam para impor à maior tarifa mundial ao importante parceiro na América do Latina.
Quando veio a tal química com Lula, relatada por Trump na Assembleia Geral da ONU, sediada em Nova York, em setembro passado – há exato um mês -, já se desenhava ali a mudança de rumo com o arguto senso do presidente dos EUA: era hora de retroceder.
Não só o Brasil foi beneficiado com a redução e tarifas, mas faltava o toque final, uma benevolência que um grande consumidor faz sempre a quem tem produtos únicos que o interessam, sem contar com o futuro: as terras raras que são fundamentais para a montagem de componentes de equipamentos de alta tecnologia.
No seu primeiro pronunciamento após a divulgação da ordem executiva, Lula declarou, em pleno salão do automóvel, em São Paulo, que aplaudia parcialmente a decisão de Trump, e que espera mais no cionutnar das negociações.
Fiesc ainda espera a inclusão dos produtos de SC na lista
Mesmo que considere um avanço, a Federação das Indústrias do Estado (Fiesc), adverte que a medida anunciada na quinta-feira (20) não inclui os produtos catarinenses, de maior valor agregado, como móveis e motores elétricos.
O presidente da entidade, empresário Gilberto Seleme, enfatiza que “não foram contemplados itens que fazem parte da chamada investigação 232, por meio da qual produtos brasileiros como madeira e móveis são sobretaxados”.
Não há outra alternativa senão manter abertos os canais de negociações entre os dois países para que venha a flexibilidade total, principalmente sobre os produtos madeira e móveis, que representam 37,3% das exportações catarinenses para os Estados Unidos e já provocaram demissões.
Embora as vendas aos Estados Unidos tenham recuado 9,3% neste ano, as exportações catarinenses em setembro aumentaram 5%.
Um Estudo da FIESC estima a perda de 19 mil empregos em um ano e de 45 mil vagas em até três anos no estado, caso as tarifas sejam mantidas, justamente no setores mais afetados: madeira, peças automotivas, equipamentos elétricos e móveis.
Já há uma retração nessas áreas, pois a Fiesc divulga que, nos meses de agosto e setembro, houve o fechamento de 1,7 mil postos de trabalho no setor de madeira, 562 no de móveis, 446 em máquinas e equipamentos e 313 na indústria metalúrgica.
Soluções passam por apoio em todas as áreas
A batalha diplomática deverá prosseguir constante, enquanto medidas anunciadas pelos governos federal e estadual tentam preservar as atividades e até manter empregos, não como baixar a guarda e aceitar o primeiro aceno dos EUA.
A FIESC está atuando, em articulação com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), para reverter a situação e para apoiar as indústrias catarinenses. Desde agosto mantém o programa desTarifaço, que oferece:
• apoio na obtenção de crédito e benefícios governamentais;
• consultoria para a abertura de novos mercados e para a adequação de produtos e linhas de produção;
• orientação jurídica sobre recursos trabalhistas e negociações sindicais;
• qualificação para funcionários inativos;
• acolhimento e requalificação para trabalhadores demitidos.
Os mitos que foram derrubados pela nova decisão
A mudança de rumo das negociações derruba o mito de que os Estados Unidos seriam implacáveis com o governo brasileiro pela razão política, muito mais ideológica, e que o secretário de Estado, Marco Rúbio, o chefe da diplomacia norte-americana manteria a pressão sobre Lula e o STF.
Na quinta-feira (20), o deputado Eduardo Bolsonaro foi às redes sociais justificar que a pressão interna e as eleições legislativas de 2026, nos EUA, tiram o mérito da diplomacia brasileira, e aproveitou para fazer novos ataques ao ministro Alexandre de Moraes, a quem responsabiliza pela crise.
Não deixa de ser um pensamento interessante, apesar do visível desconforto por Trump ter agido como Trump e deixar de lado a luta ideológica travada pelos Bolsonaro contra Lula, e ter sido pragmático no que entende, fazer negócio.
Sobre o restante das sanções, vistos de entrada nos EUA a ministros do STF e a outras autoridades, mais a força da Magnistky contra Moraes e a mulher, estão no pacote de itens da negociação e a derrubada deverá vir bem mais tarde,
No resumo, cumpriu-se uma avaliação feita nos primeiros momentos do tarifaço, de que as soluções para crise viriam nos campo diplomático com viés comercial e não político, até porque o que perdura neste fato é a questão ideológica, que não será alterada diante do atual ato de retroceder nas tarifas entre EUA e Brasil.