Ministro do STF admite que se reuniu com ex-banqueiro em 2025 e também o ouviu na semana passada, sem a presença da Polícia Federal
Responsável por reativar toda a raiva da oposição e de bolsonaristas contra o colega Alexandre de Moraes, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal federal (STF), admitiu que se encontrou com o então banqueiro Daniel Vorcaro, em 14 de março de 2025, mas nega que tenha tratado, à época, da situação do Banco Master, que foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central, em outubro do ano passado.
Não foi o único contato entre o ministro do STF, que liberou a quebra de sigilo sobre mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, que também interrogou o ex-banqueiro preso por fraude, sem a presença de policiais federais, na semana passada, ainda em agosto de 2026.
Mendonça entra para o seleto grupo de magistrados do STF que, de alguma maneira, tiveram proximidade com Vorcaro, embora sem a intimidade revelada nas conversas obtidas pela Polícia Federal, que deixaram a situação de Moraes mais do que delicada As mensagens e áudios revelam que Vorcaro também tentou aproximação com Mendonça, e os diálogos, divulgados pelo site ICL, nesta quarta-feira (2), teriam sido extraídos do celular do ex-banqueiro e confirmam o encontro.
O advogado baiano Ciro Rocha Soares e o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) eram os articuladores do encontro entre Vorcaro e Mendonça, revelação que vem a público um dia após o ministro derrubar o sigilo de um relatório da Polícia Federal, que complica Moraes.
As mensagens ainda mostram que Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça e afirmou que estava “trabalhando” para o banqueiro enquanto levava o ministro a uma alfaiataria.
“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, disse o advogado em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.
Em outro áudio, Ciro disse ter deixado Mendonça “balançado” e que o ministro “quer te receber junto comigo, me pediu até pra levar o Otto, e concluiu: “Ele (Mendonça) sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha, Cezinha já tinha falado com ele.”
O “Otto” mencionado na mensagem pode ser referência ao senador Otto Alencar (PSD-BA), com quem Ciro havia dito que viajaria para Brasília próximo àquela data. A identidade, porém, não foi confirmada.
Os diálogos mostram um esforço de Vorcaro e seus aliados para tentar solucionar problemas do banco Master com o Banco Central.
Em nota, o gabinete do ministro André Mendonça disse ter recebido Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário. A assessoria acrescentou ainda que o ministro “se limitou a ouvi-lo”.
“No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro”, complementou.
Fachin prometeu medidas em breve sobre o caso
O ministro Edson Fachin, presidente do STF, se manifestou nesta quarta-feira (2), , sobre a crise institucional após a divulgação do relatório que indica aproximação entre o ministro Moraes e o ex-banqueiro Vorcaro.
Fachin disse que “autoridade do cargo não confere privilégios”, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao Supremo Tribunal Federal. Além disso, o ministro afirmou que irá anunciar medidas cabíveis e necessárias após concluir a análise do caso.
Antes, Fachin iniciou a nota reforçando ser “dever de todos preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito às suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição”.
Em meio à crise, o procurador-geral da República Paulo Gonet, citado nos diálogos de Vorcaro com assessores e advogados, que participou inclusive de uma degustação de uísque, em Londres, bancada pelo então banqueiro, pediu que o relatório do ministro André Mendonça sobre Alexandre de Moraes seja anulado, por conter irregularidades no procedimento judicial.
Ministros na mira de Vorcaro
Se no Senado, onde há mais pedidos de impeachment de Alexandre de Moraes, uma reação que remonta aos julgamentos e condenações do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de assessores sobre tentativa de golpe de Estado, além da prisão de pessoas que participaram dos atos de vandalismo de 8 de janeiro de 2023, parlamentares tiveram proximidade com Vorcaro, no STF não é diferente.
Além da mulher de Moraes ter atuado junto ao Banco Master, os filhos de pelo menos dois ministros da corte, Luiz Fux e Nunes Marques, também trabalharam para o ex-banqueiro em causas jurídicas.
E outro episódio não deve ser ignorado, a participação do ministro Dias Toffoli e de seus irmãos, que venderam o Tayayá Aqua Resort, localizado no município de Ribeirão Claro, no norte do Paraná, às margens da represa de Chavantes, para Vorcaro.
O ex-banqueiro estendeu a teia dele sobre o poder em Brasília.
Fez mais aportes no filme da cinebiografia de Jair Bolsonaro, a pedido do senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, um total de R$ 65 milhões – e devem aparecer mais outros repasses; e financiou viagens internacionais e mimos ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas, bem como vantagens ao também senador Jaques Wagner (PT-BA), que foi líder do governo Lula no Senado, , como ingressos a shows de artistas como a cantora norte-americana Taylor Swift em viagem ao exterior.
Vorcaro exercitou a máxima de que basta ter poder, tem que influenciar. Na sessão desta tarde de quarta-feira (2), no Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes e André Mednonça estão em seus respectivos lugares no plenário, lado a lado, mas sequer se entreolharam.
Foto: Reprodução/TV Justiça
A TV Justiça evitou mostrar os dois de frente, apenas em um take de costas, antes de iniciar os debates do julgamento sobre a cobrança antecipada do ITBI, que terá repercussão geral, ou seja, a decisão da corte será aplicada por todos os tribunais.