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Política

“Ultrapassei os limites”: vereador se retrata após dizer que “50% dos advogados estudam para roubar o pobre”

Talise Freitas | - Atualizado 3 semanas atrás

Reprodução

O vereador Valdeci Bittencourt, o Amaral (PSD), usou a Sessão Ordinária Itinerante da Câmara de Vereadores de Criciúma, realizada no bairro Cristo Redentor, na noite desta terça-feira, para ler uma nota de retratação sobre uma declaração feita na sessão anterior.

Na segunda-feira (24), durante uma discussão no Legislativo, Amaral afirmou que “50% dos advogados estudam para roubar o pobre”.

“50% dos advogado (sic), eu vou bem baixo, estudam para roubar o pobre. Vou botar uma taxa bem baixa, até para não ofender os bons advogados. Eles estudam para roubar aqueles coitadinho do INSS que estão para receber a aposentadoria, para roubar aquelas questões que o coitadinho não sabe quanto vai receber”, disse.

Em seguida, Amaral foi advertido pelo vereador Obadias Benones (PL), que sugeriu que ele se retratasse e questionou qual fonte havia sido utilizada para chegar a tal conclusão.

Benones também afirmou que a declaração poderia provocar uma manifestação da OAB, o que posteriormente ocorreu.

“Até porque o que ele traz aqui é assustador. Perigoso a sua fala, é grave”, advertiu Benones.

Discussão do PL dos Currículos

A fala ocorreu durante a discussão do Recurso ao Parecer de Ilegalidade da Comissão de Constituição e Justiça acerca do Projeto de Lei nº 77/2026, de autoria do vereador Nicola Martins.

A proposta dispõe sobre a publicação do currículo dos ocupantes de cargos comissionados vinculados aos Poderes Executivo e Legislativo do Município de Criciúma.

O recurso foi rejeitado por sete votos contrários e seis favoráveis, e o projeto acabou arquivado.

Repercussão

A declaração provocou repercussão e levou tanto a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) quanto a própria Câmara de Vereadores de Criciúma a se manifestarem oficialmente.

Nesta terça-feira, Amaral voltou à tribuna e reconheceu ter feito uma generalização injusta contra a categoria, além de admitir não possuir elementos concretos que sustentassem o percentual mencionado.

“Reconheço que, no calor do debate, ultrapassei os limites da crítica e fiz uma generalização injusta sobre a advocacia, inclusive mencionando um percentual que não possuo elementos concretos para sustentar. Por isso, retiro expressamente essa generalização, o percentual mencionado e peço humildemente minhas sinceras desculpas aos bons advogados e às boas advogadas”, desculpou-se.

Assista ao vídeo:

Manifestações

Em nota de repúdio divulgada logo após a fala do vereador, a OAB informou que, em defesa da dignidade da advocacia e do respeito devido aos profissionais, adotaria, em conjunto com a Subseção de Criciúma, as medidas judiciais e institucionais cabíveis diante das declarações.

OAB SUBSEÇÃO CRICIÚMA | NOTA DE REPÚDIO

A OAB Seccional de Santa Catarina e a OAB Subseção de Criciúma, em defesa da dignidade da advocacia e do respeito devido a milhares de profissionais que exercem sua missão com liberdade, responsabilidade, coragem e amor, adotarão conjuntamente as medidas judiciais e institucionais cabíveis diante das declarações proferidas nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, pelo vereador Amaral Bittencourt, da tribuna da Câmara Vereadores de Criciúma.

A liberdade de expressão é uma conquista fundamental da humanidade, reconhecida, entre outros instrumentos, nos arts. 18 e 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e assegurada pela Constituição Federal, especialmente em seus arts. 5º, IV e IX, e 220.

A OAB e a advocacia brasileira sabem, mais do que ninguém, o valor dessa conquista. A história da advocacia está profundamente ligada à defesa das liberdades, do Estado Democrático de Direito e das garantias fundamentais. A própria Constituição Federal reconhece que o advogado é indispensável à administração da justiça e assegura a inviolabilidade por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei.

Liberdade de expressão, entretanto, não se confunde com liberdade para ofender, imputar genericamente a uma categoria profissional a prática de atos desonestos ou criminosos ou atingir, sem individualização e sem qualquer demonstração, a honra e a reputação de milhares de pessoas.

Críticas à advocacia são legítimas. A atuação de advogados pode e deve ser fiscalizada. Eventuais desvios profissionais devem ser denunciados e apurados pelos órgãos competentes. O exercício do mandato parlamentar também assegura ao vereador ampla liberdade para manifestar suas opiniões.

Mas nenhuma dessas garantias autoriza, por si só, o abuso de direitos fundamentais. A própria Constituição estabelece que a honra e a imagem das pessoas são invioláveis e assegura a responsabilização por sua violação.

É justamente por acreditar na liberdade de expressão que a OAB não pode permanecer silente diante de uma manifestação que, em tese, ultrapassa os limites da crítica legítima e atinge, de forma indiscriminada, a honra da advocacia e de milhares de profissionais que diariamente trabalham com dignidade, honestidade e compromisso com a Justiça.

A OAB não pretende silenciar ninguém. Pretende apenas afirmar, com serenidade e firmeza, que liberdade de expressão exige civilidade e responsabilidade e deve ser exercida nos limites estabelecidos pela Constituição e pelas leis.

Por isso, as declarações serão submetidas à análise jurídica e serão adotadas as medidas cabíveis, inclusive para que sejam examinados, nas esferas pertinentes, os eventuais excessos e responsabilidades decorrentes das manifestações proferidas.

A advocacia merece respeito.

Não porque esteja acima de críticas, mas porque exerce função essencial à Justiça e porque milhares de advogadas e advogados de Santa Catarina dedicam suas vidas à defesa dos direitos dos cidadãos, muitas vezes daqueles que mais precisam de proteção.

Liberdade de expressão, sim. Crítica, sim. Fiscalização, sim.

Abuso, ofensa e generalização irresponsável, não.

A OAB defenderá a advocacia com a mesma liberdade, responsabilidade, coragem e amor com que seus profissionais defendem, todos os dias, os direitos de seus constituintes e o Estado Democrático de Direito.

Criciúma, 24 de agosto de 2026.

Moacyr Jardim de Menezes Neto

Presidente da OAB Subseção Criciúma

Câmara de Vereadores de Criciúma também emitiu nota 

A Câmara de Vereadores também se posicionou sobre o episódio, esclarecendo que não compactua, não endossa e não se associa a manifestações individuais que possam atingir a honra ou a dignidade de trabalhadores, independentemente da classe ou profissão a que pertençam.

NOTA OFICIAL DE ESCLARECIMENTO

A Câmara de Vereadores de Criciúma vem a público, diante da situação envolvendo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – Subseção Criciúma, ocorrida nesta segunda-feira (24), manifestar seu repúdio a qualquer manifestação que possa representar ataque, desrespeito ou generalização em relação a uma categoria profissional.

A instituição esclarece que não compactua, não endossa e não se associa a manifestações individuais que possam atingir a honra ou a dignidade de trabalhadores, independentemente da classe ou profissão a que pertençam.

A Câmara reafirma seu respeito à OAB, à advocacia e a todas as categorias profissionais, reconhecendo a importância do trabalho desenvolvido por seus representantes e profissionais em benefício da sociedade.

O Poder Legislativo de Criciúma reforça seu compromisso com o respeito, o diálogo democrático e a responsabilidade, destacando que manifestações individuais de parlamentares não representam o posicionamento institucional da Câmara.

Câmara de Vereadores de Criciúma

Relembre a fala:

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