A história de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, conhecido como “Vaqueirinho”, morto após invadir o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa (PB), é marcada por abandono, pobreza extrema e transtornos mentais, segundo relatou uma conselheira tutelar que acompanhou o caso por anos.
De acordo com a conselheira Verônica Oliveira, que atendeu Gerson dos 10 aos 18 anos, o jovem cresceu em um contexto de vulnerabilidade profunda.
Filho de uma mulher com esquizofrenia e neto de avós também com problemas de saúde mental, ele vivia em condições precárias desde a infância.
Os cinco irmãos chegaram a ser retirados da família e encaminhados para adoção. Todos foram acolhidos por novas famílias — menos Gerson.
Segundo a conselheira, ele chegou a ser considerado “difícil” e acabou rejeitado no próprio abrigo, sob a avaliação de que ninguém aceitaria adotá-lo.
A mãe, por sua vez, não tinha condições emocionais de cuidar do filho. Em algumas ocasiões, ainda conforme o relato de Verônica, ela chegou a procurar o Conselho Tutelar dizendo que não queria mais ser responsável por ele.
Gerson foi diagnosticado com esquizofrenia e atraso cognitivo. Embora tivesse 19 anos, se expressava e se comportava como uma criança, relatou a conselheira.
Sem acompanhamento adequado por boa parte da vida, acumulou passagens pela polícia desde muito cedo, principalmente por furtos.
Pouco antes da morte, ele havia sido preso por tentar danificar caixas eletrônicos e, depois, por apedrejar uma viatura da Polícia Militar.
Em uma dessas ocasiões, contou à conselheira que queria “mudar de vida” e trabalhar, mas precisava de documentos e carteira assinada. O apoio chegou a ser iniciado, mas não houve tempo para uma mudança de rumo.
Segundo Verônica, a morte de Gerson foi o desfecho trágico de uma trajetória marcada pela ausência de políticas eficazes de acolhimento e tratamento.
Para ela, o jovem é “resultado de um sistema que falhou em proteger alguém que sempre esteve em sofrimento”.
Sonho com leões e comportamento de risco
Gerson tinha uma fixação antiga por leões e dizia que queria ir para a África “domar” os animais. Em um episódio anterior, chegou a entrar escondido no trem de pouso de um avião acreditando que conseguiria realizar esse desejo, sendo contido e encaminhado novamente ao Conselho Tutelar.
O comportamento de risco, somado aos transtornos mentais, reforça, na avaliação de quem o acompanhava, que o jovem precisava de tratamento contínuo e suporte especializado, o que não se consolidou ao longo dos anos.
O ataque no zoológico
No domingo (30), Gerson invadiu o recinto da leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, a Bica, em João Pessoa. Imagens feitas por visitantes mostram o jovem escalando a estrutura lateral do recinto, usando uma árvore como apoio e, em seguida, sendo atacado pelo animal.
O parque estava aberto à visitação no momento do ataque. Após o ocorrido, o zoológico foi imediatamente fechado, e as atividades seguem suspensas até a conclusão das investigações. A Polícia Militar e o Instituto de Polícia Científica da Paraíba (IPC) foram acionados e estiveram no local.
A Prefeitura e a administração da Bica afirmaram, em nota, que o ambiente da leoa segue normas técnicas de segurança, com estrutura elevada e grades reforçadas, e classificaram o episódio como imprevisível.
Leoa não será sacrificada
A direção do parque informou que a leoa, chamada Leona, não será sacrificada. O animal passa bem, mas permanece em observação por ter sido submetido a uma situação de estresse intenso.
Em comunicado público, o zoológico reforçou que segue padrões rígidos de segurança e que está colaborando com as autoridades para esclarecer todos os detalhes do caso.

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